Desigualdades Marcadas Pelas Fronteiras Internas Materiais e Psicológicas

Segundo o Mapa da Desigualdade, “30% da população da América Latina e Caribe vivem em pobreza ou em extrema pobreza” (REDE NOSSA SÃO PAULO, 2019) e no Brasil, os indicadores de desigualdades de concentração de renda e de condições sociais apontam para a seguinte classificação: 50% fazem parte do grupo de mais pobres, 40% de classe média, 9 % de ricos, 1% de muito ricos.


A diferença social é reforçada por um sistema educacional que separa pobres e ricos. Ou seja, as escolas públicas não possuem infraestrutura e apoio institucional para suas sustentabilidades financeiras como ocorre nas escolas privadas frequentadas por alunos pertencentes às classes média e alta. Tal fato empurra as populações mais pobres a situações de desigualdades de oportunidades e prolifera, assim, as tantas fronteiras que intensificam as práticas de segregações sociais.


O desemprego e a falta de contato com círculo de pessoas que são conhecidas como as "socialmente influentes" fazem com que os sujeitos de comunidades vulneráveis sigam à margem da sociedade, invisibilizados. Eles vivem em moradias precárias, construídas ou em setores distantes das populações mais abastadas ou mesmo grudadas a bairros de classe média e alta (como é o caso de Paraisópolis; foto abaixo). Os sujeitos que vivem nas margens são tratados de forma discriminatória.


Os contrastes das condições de moradia, sanitárias e econômicas são, claramente, gritantes!



Muitas Fronteiras Internas em Centros Urbanos do Brasil


A cotidianidade contrastante dos mais empobrecidos e dos mais enriquecidos é composta por camadas fronteiriças que impõem divergentes realidades a distintas faixas populacionais que co-habitam em uma mesma cidade. O acesso a meio de transportes,

de comunicação, serviços médicos e sanitários coloca os mais pobres e os mais ricos em patamares distanciados, formando-se um abismo entre suas histórias de vida.


São muitas as fronteiras internas estabelecidas em grandes centros urbanos que separam grupos mais pobres de grupos mais ricos, tais como: acesso à educação, ao mercado de trabalho formal e aos serviços de água e energia.


Comunidades Favelizadas: o caso de Paraisópolis como exemplo


O último Censo do IBGE que tratou do número de habitantes nas comunidades favelizadas de São Paulo data de 2010. Paraisópolis, que tomo como exemplo neste artigo, somava um total de habitantes igual a 42.826 (IBGE, 2010).


Paraisópolis é apontada como a segunda maior comunidade favelizada de São Paulo (ficando atrás de Heliópolis) e descortina um panorama alarmante em relação à falta de alfabetização, já que 12 mil de seus moradores são analfabetos ou semianalfabetos (G1, dezembro de 2019).


Quanto a outras características populacionais da comunidade de Paraisópolis, gostaria de destacar que:

  • 31% da população é composta por jovens de 15 a 29 anos,

  • As mulheres são apontadas como arrimo familiar em 42% dos lares.


Contraste - Condomínio do Morumbi - Vista desde rua de Paraisópolis


Movimento Com Vida e Em Paz e a preocupação com as Desigualdades


Dois públicos que muito nos preocupam são:


1. De mulheres: que em comunidades vulneráveis são as responsáveis únicas por manter a sobrevivência de seus familiares.


2. De adolescentes e jovens: que são altamente vulneráveis em relação à carência de oportunidades. O sistema de ensino é precarizado nas comunidades marginalizadas e o acesso às universidades é injusto, já que é difícil a concorrência entre eles e os jovens de camadas sociais mais privilegiadas através de sistemas como ENEM e Vestibulares.


Fronteiras Psicológicas


Além das fronteiras que podem ser analisadas por meio de referências quantitativas alarmantes, há de se considerar as fronteiras psicológicas que abarcam as representações do “dentro” e do “fora”, importantes para o entendimento do pertencimento ou não a uma comunidade. Aliado a isso, surgem conceitos de “familiaridade” e “estranhamento”, “proximidade” e “distanciamento”, tão bem enunciados por Bauman:


"Próximo” é um espaço dentro do qual a pessoa pode-se sentir chez soi, à vontade, um espaço no qual raramente, se é que alguma vez, a gente se sente perdido, sem saber o que dizer ou fazer. “Longe”, por outro lado, é um espaço que se penetra apenas ocasionalmente ou nunca, no qual as coisas que acontecem não podem ser previstas ou compreendidas e diante das quais não se saberia como reagir: um espaço que contém coisas sobre as quais pouco se sabe, das quais pouco se espera e de que não nos sentimos obrigados a cuidar. Encontrar-se num espaço “longínquo” é uma experiência enervante; aventurar-se para “longe” significa estar além do próprio alcance, deslocado, fora do próprio elemento, atraindo problemas e temendo o perigo. Devido a todos esses aspectos, a oposição “longe-perto” tem mais uma dimensão crucial: aquela entre a certeza e a incerteza, a autoconfiança e a hesitação." (BAUMAN, 1999, p.20-21)


As fronteiras internas dentro dos grandes centros urbanos brasileiros nos mostram a brutalidade das injustiças sociais. Há um jogo desleal entre o "longe" e o "perto". Os moradores de Paraisópolis estão tão "perto" das varandas com piscina dos moradores do condomínio de luxo, mas ao mesmo tempo as duas realidades são absurdamente "longínquas". Longe-perto é uma das dinâmicas que alimentam as engrenagens das injustiças sociais.


Os filhos dos donos dos apartamentos do condomínio no Morumbi quando estão em suas piscinas privadas nas suas varandas gourmets avistam, por exemplo, as crianças de Paraisópolis jogando futebol e empinando pipa. Sob a visão das crianças há algo que as conecta: o fato de todas elas serem crianças! Diferente da concepção dos adultos, a qual impõe distância.


É claro que as oportunidades de futuro para crianças e adolescentes do chão, no espaço favelizado, estão muito distantes da realidade daqueles que estão no alto, no espaço gourmetizado .


Todos merecem as mesmas oportunidades! E como fazer para que as tenham?


Concluo este texto sem repostas. Ao contrário, com uma provocativa pergunta:


  • Como aproximar crianças e adolescentes destes dois mundos tão contrastantes para que eles sejam protagonistas de um futuro melhor, através de ações de Cultura de Paz que rompam as fronteiras visíveis, invisíveis, materiais e psicológicas estabelecidas por gerações que os antecederam?


Referências Bibliográficas:


BAUMAN, Zygmunt. Globalização: As consequências humanas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1999. Tradução de Marcus Penchel.


G1. Paraisópolis é a segunda maior comumidade de São Paulo. Dezembro de 2019. Disponível em < https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2019/12/01/paraisopolis-e-a-2a-maior-comunidade-de-sao-paulo-e-moradores-pedem-acoes-sociais-ha-pelos-menos-10-anos.ghtml> Acesso em 14 jun.2020



Observação Final: O Movimento com Vida e Em Paz tem o papel de gerar reflexões sobre igualdade de oportunidades e, a partir disso, traçar ações efetivas de Educação para a Paz, construindo pontes e derrubando barreiras!

Caso você tenha ideias que se insiram nessa linha de pensamento, por favor, nos escreva (comvidaempaz@gmail.com).


Gratidão por ler este artigo sobre as Fronteiras !

Abraços afetuosos!

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