CONTO A CAIXA RESTAURADA

Sobre um armário de uma casa no bairro da Carvoeira em Florianópolis, estava uma caixa toda empoeirada e tomada pela umidade. Em um domingo ensolarado, Suzi, a quem a velha caixa pertencia, resolveu resgatá-la do esquecimento e isolamento. Sendo assim, subiu em uma escada e a retirou lá de cima para pedir que a sua mãe, que tem mãos de ouro, a pintasse e a ressuscitasse.

Em novembro de 2019, colocou a caixa dentro da sua mala rumo a São Paulo e foi assim que começou a saga da caixa restaurada.

A caixa era de papelão duro, decorada por figuras geométricas de tons de marrom, laranja e preto. As camadas de papel estavam descamando e suas cores tinham ficado opacas com o passar dos anos. A esperança de que ela pudesse ser restaurada era ínfima.

Dentro dela havia lembranças: fotos, duas cartinhas dos filhos de Suzi, a velha carteira do seu falecido pai e um livro de orações diárias. A caixa carregava em seu interior um pedaço do coração de Suzi. Talvez, se a caixa pudesse falar, ela perguntaria para Suzi:

- Por que me abandonou lá em cima daquele armário se eu e você estávamos tão intimamente ligadas?

Acredito que, no final das contas, a alma existente na velha caixa foi quem tocou silenciosamente o coração de Suzi. O som do amor falou mais alto.

O fato é que a caixa foi entregue à mãe de Suzi que, a princípio, avisou:

- Tarefa difícil essa, mas não impossível.

Então, a caixa ficou cerca de dois meses em tratamentos intensivos. Com uma inabalável paciência, a mãe de Suzi descascou a camada prejudicada e mais sobressaliente da caixa, preparou uma massa impermeabilizante, passou uma mão de tinta branca em todo o corpinho da caixa e a deixou secar. Depois de alguns dias, voltou a cobri-la com outra mão da base branca e a colocou em nova fase de secagem. Até que, depois de semanas, a caixa parecia estar com a sua pele reavivada e prontinha para ser tatuada. Foi quando a mãe de Suzi começou a riscar, minuciosamente, com lápis grafite os primeiros esboços da ilustração. Namorou cada um dos riscos do desenho e visualizou como ele seria preenchido com diferentes tons de azul, cor favorita de Suzi. Após ter certeza que tudo estava como havia sonhado, começou a contornar os traços com caneta preta fina. Concluída essa etapa, a caixa foi colocada em estado de repouso porque tinham transcorridas muitas horas de trabalho que exigiram muita dedicação da mãe de Suzi e muita resiliência da pobre caixinha.

Chegou, então, o grande momento: receber as cores e recobrar o brilho.

Voilà! Ficou lindíssima!

E chegou o dia do gran finale: o reencontro da adorável caixinha e da inquieta Suzi. Era como uma reaproximação entre alma e corpo.

Suzi ficou emocionada porque estava diante de uma obra-prima da sua mãe. Ela sabia que a reconstrução tinha sido realizada com a mais importante das ferramentas: amor. Prometeu para si mesma que não abandonaria nunca mais a caixinha, pintada com flores azuis, e que a colocaria em um lugar de destaque no seu quarto.

Foi assim que fez, mas, dois meses após essa promessa, chegou a pandemia da Covid-19 que abalou o cotidiano global. Suzi, a princípio, alimentou a sua coragem e, durante o isolamento promovido pelo governo local para conter o vírus, empreendeu um projeto em prol de comunicação para a paz, lançando uma página na internet e angariando alguns adeptos para a cruzada em prol da vida e da paz.

Os meses foram passando e as pessoas foram ficando cada vez mais esgotadas pela presença do cruel vírus que não se cansava de encontrar mais formas de contagiar as pessoas e de levar tristeza para as cidades, comunidades e lares. Suzi foi se deixando abater, foi perdendo suas forças interiores, o seu ânimo foi empoeirando e a sensação era a de estar pendurada e isolada em algum lugar escuro, da mesma forma que a sua caixinha esteve na sua casa da Carvoeira em Florianópolis. O seu projeto de cultura de paz foi perdendo força e ela o deixou guardado, do mesmo jeito que já havia feito com aquela sua caixa de lembranças.

Então, no dia 5 de janeiro de 2021, olhou para a caixinha que estava no seu quarto. Sentiu um sopro divino que lhe indicou para que a abrisse. Ao fazê-lo reencontrou a riqueza que ali guardava: fotos, duas cartinhas de seus filhos, a velha carteira do seu falecido pai e um novo livro de orações diárias que havia substituído o anterior.

Abriu o livro na mensagem do dia 5 de janeiro e estava lá:

«Nascer de Novo»

«Você não vai mudar até que sua mente mude!(…) O que é uma alma?»

O texto propunha que todo o ser humano é tripartido porque tem um corpo, uma alma e um espírito.

Então, Suzi pensou na sua relação com o Criador e como Ele não a havia abandonado nunca. Jamais Ele a largaria num cantinho escuro e úmido como ela tinha feito com a caixinha. Ele a ama incondicionalmente e está ao lado de todos os seres humanos, mesmo que nem todos compreendam essa Sua fiel presença.

A real situação é que a mente de Suzi estava sendo tomada pela espessa névoa das incertezas. Por isso, ela estava perdendo o bom ânimo e deixando se arrastar para um lugar escuro e sombrio durante esse momento tão difícil da pandemia. São tempos que exigem muita resiliência de todos os seres humanos.

Ela, em suas reflexões sobre o quadro pandêmico que afeta a todos, lembrou dos passos daquela sua caixa até chegar à restauração completa.

A caixinha aguentou a dor do abandono, da umidade penetrando em seu corpo de papelão, da mudança para outra cidade dentro de uma mala e do processo cirúrgico para que ressuscitasse. Recebeu o carinho e foi presenteada com as artísticas expressões de afeto da mãe de Suzi.

A alma (da caixinha) e o coração (da mãe de Suzi) se mesclaram não apenas para o cumprimento da tarefa de restauração de um objeto inanimado, mas sim para ensinar à Suzi sobre a importância de renascer.

Um só corpo e um só espírito, assim podemos ser quando deixamos a luz que vem do Alto invadir a escuridão das nossas vidas.

Nicodemos, em uma das passagens do Novo Testamento, é convidado por Jesus a nascer de novo, do Espírito. Suzi, você, eu, todos nós, também somos convidados a nascer novamente durante esta pandemia que parece não ter fim. E para que superemos a dura lição do isolamento, tenho a convicção de que precisamos focar nossos olhares no que está acima das coisas terrenas, abrindo nossos corações a um plano Maior: o Celestial.

A caixinha restaurada tem um toque celestial, não apenas por sua cor azul, mas porque ela nos ensina como Deus nos convida a nos entregarmos à obra amorosa da restauração do conjunto: exterior e interior fusionados.

Há na sua vida anjos amorosos, como a mãe de Suzi, para lhe ajudar na sua própria restauração. Você também pode ser o anjo amoroso que ajudará outras pessoas na tarefa de restauração do bom ânimo, dedicando-lhes o mesmo carinho que a mãe de Suzi dedicou à caixinha que estava umedecida, opaca e descascando.

O conteúdo da caixinha restaurada é tudo aquilo de mais reluzente que Suzi, eu e você levamos conosco ao longo da nossa trajetória. E conforme proposto pelo querido Jesus, ninguém após acender um candeeiro o deixa em lugar escondido, mas sim no alto para que todos que entrem no ambiente apreciem a luz!

Devemos deixar a nossa luz brilhar para tornar o mundo um lugar muito melhor para nós mesmos e para as gerações vindouras. Podemos fazer resplandecer a luz para quem se sente triste, desanimado e esquecido num cantinho escuro. Nascemos para irradiarmos luz e não para nos afundarmos na escuridão.

Que a Covid e outros males da história da humanidade continuem sendo combatidos com a luz que brilha das muitas caixinhas restauradas: nossas almas! Depende da perseverança, amor e coragem de cada um de nós!

Suzanne Legrady

comvidaempaz@gmail.com

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